Civilização · Mesopotâmia · c. 4000-3100 a.C.

Civilização mais antiga do mundo: Uruk e o nascimento da cidade

Suméria, sul da Mesopotâmia · Leitura de 10 minutos

Tabuleta suméria de argila com sinais cuneiformes sobre pedra escura, ruínas de zigurate ao fundo

A resposta curta para a pergunta sobre qual é a civilização mais antiga do mundo tem nome e endereço: a Suméria, no sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates. E a primeira cidade que ela produziu se chamava Uruk.

O detalhe que assombra não é a idade. É o motivo. A escrita, a invenção que marca o começo da história registrada, não nasceu para contar histórias. Nasceu para contar cevada.

O que é a civilização mais antiga do mundo

Quando se fala em civilização mais antiga do mundo, o candidato mais defensável é a Suméria, no sul do atual Iraque. Foi ali, por volta de 4000 a.C., que apareceram as primeiras cidades com muralhas, templos, burocracia e escrita ao mesmo tempo.

Essa lista de quatro itens não é decorativa. Ela é o critério. Assentamentos humanos muito mais antigos existem: Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, foi erguido por volta de 9600 a.C., e Çatalhöyük, na Anatólia central, abrigava milhares de pessoas por volta de 7100 a.C. Nenhum dos dois deixou registro administrativo, estado ou escrita.

O centro de tudo era Uruk, hoje coberta pelas dunas do deserto iraquiano, na província de Al-Muthanna. Entre 4000 e 3100 a.C., a população dentro de suas muralhas saltou de algumas centenas para cerca de quarenta mil habitantes, número que só seria igualado por Atenas três mil anos depois.

A cidade chegou a ocupar 6 km², cercada por uma muralha de mais de nove quilômetros, atribuída pela tradição ao rei Gilgamesh. Uruk não era uma aldeia grande. Era a primeira cidade do mundo em qualquer definição séria do termo.

A origem: do excedente agrícola à primeira cidade

A civilização mais antiga do mundo não surgiu de um golpe de genialidade. Surgiu de um problema prático: o que fazer com a sobra. As aldeias do sul da Mesopotâmia aprenderam a irrigar a planície e passaram a colher mais grão do que consumiam.

O excedente precisava ser guardado, medido e redistribuído. Quem assumiu essa função foi o templo. No coração de Uruk ficavam dois complexos, o Eanna, dedicado à deusa Inanna, e o Kullaba, dedicado a An, deus do céu.

O templo virou o primeiro grande centro administrativo da história. Recolhia cevada, gado e tecido das aldeias, estocava tudo e devolvia em rações a trabalhadores. Para dar conta desse fluxo, alguém precisou inventar uma forma de registrar quem devia o quê a quem.

Guillermo Algaze, em "Ancient Mesopotamia at the Dawn of Civilization" (2008), acrescenta uma peça geográfica ao quadro. O sul da Mesopotâmia tinha água, tâmara e cevada em abundância, mas nenhuma pedra, nenhum metal e quase nenhuma madeira. Tudo o que era duro vinha de fora, trocado por grão e tecido. Uma economia dependente de importação precisa de contabilidade antes de precisar de literatura.

Linha do tempo da civilização mais antiga do mundo

  1. c. 4000 a.CUruk começa a crescer no sul da Mesopotâmia e inicia a primeira urbanização da história.
  2. c. 3500 a.CA cidade concentra dezenas de milhares de pessoas em torno dos templos do Eanna e do Kullaba.
  3. c. 3350-3100 a.CNos níveis IV e III do sítio surgem as primeiras tabuletas de argila com marcas incisas.
  4. c. 3200 a.CNasce a escrita cuneiforme, já madura, com cerca de 900 sinais entre pictogramas e numerais.
  5. c. 3000 a.COs sinais giram cerca de noventa graus e passam a ser impressos com estilete de cana, não mais desenhados.
  6. c. 2600 a.CSó então a escrita passa a registrar hinos, cartas e provérbios, cinco séculos depois de nascer contábil.

Uma civilização perdida por noite, com o padrão que ela deixou

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Como funcionava o sistema que virou escrita

Antes das tabuletas, os sumérios contavam com tokens: pequenas peças de argila cozida, do tamanho de uma moeda. Cones representavam medidas de grão, esferas indicavam quantidades maiores, cilindros valiam por cabeças de gado, discos por rebanhos.

Julius Jordan, do Instituto Arqueológico Alemão, recolheu milhares dessas peças em Warka nos anos 1920 e as classificou como amuletos ou peças de jogo. Meio século depois, a arqueóloga franco-americana Denise Schmandt-Besserat catalogou mais de oito mil fichas semelhantes em museus da Europa e do Oriente Médio, vindas de sítios que iam da Turquia ao Paquistão, e mostrou em "Before Writing" (1992) que aquilo era um sistema, não decoração.

O mecanismo intermediário é o passo que explica o resto. Para fechar uma remessa, os tokens correspondentes eram lacrados dentro de uma bola oca de argila, a bulla. Selada, ela garantia que ninguém tirasse nem acrescentasse fichas no caminho. Só que, uma vez fechada, ninguém enxergava o conteúdo sem quebrar o lacre.

A solução foi pressionar cada ficha na superfície externa da bola antes de fechá-la, deixando a marca do que havia dentro. Em algum momento alguém percebeu que a marca externa já respondia à pergunta e que a bola de argila tinha virado embalagem inútil. Restou a superfície plana com sinais: a tabuleta.

Por volta de 3200 a.C., os sinais deixam de ser desenhados com ponta fina e passam a ser impressos com um estilete de cana cortado em bisel. A pressão na argila úmida deixa um traço triangular, a cunha que dá nome ao cuneiforme. A mudança é de ferramenta, não de ideia: escrever ficou mais rápido e mais padronizado.

O que as cinco mil tabuletas realmente registram

Hans Nissen, da Universidade Livre de Berlim, dirigiu a missão alemã em Uruk nas décadas de 1960 e 1970 e estratificou o sítio em dezoito níveis de ocupação. Nos níveis IV e III, datados entre 3350 e 3100 a.C., apareceram as primeiras superfícies planas com marcas incisas.

O corpus arcaico foi organizado por Nissen, Peter Damerow e Robert Englund no projeto "Archaische Texte aus Uruk", publicado entre 1987 e 1996. São cerca de cinco mil tabuletas, e o que elas dizem é decepcionante para quem espera mito: volumes de cevada entregues ao templo, ovelhas recebidas em troca de tecido, rações distribuídas a trabalhadores, nomes de funcionários e seus selos.

De 85% a 90% de todo o corpus escrito daquele período é administrativo. Os 10% a 15% restantes são listas lexicais, espécie de dicionário padronizado usado para treinar escribas. A mais famosa delas, a lista de profissões conhecida como Lú A, foi copiada quase sem alteração por mais de mil anos, e cópias dela aparecem em cidades distantes como Ebla, na Síria.

Há um detalhe técnico que reforça o argumento contábil. Os textos arcaicos não usam um sistema numérico único. Damerow e Englund identificaram vários sistemas convivendo na mesma cidade, cada um amarrado a um tipo de mercadoria: um para gado e pessoas, outro para medidas de grão, outro para áreas de terra. Quem inventa cinco maneiras diferentes de contar está resolvendo estoque, não poesia.

O poema de Gilgamesh, na forma que Andrew George reconstituiu para a Penguin em 1999, vem de tabuletas acádicas do segundo milênio a.C. A literatura chega quando a tecnologia da escrita já tem mais de mil anos de idade.

Onde os especialistas discordam

Vale separar o que é consenso do que é disputa, porque a internet costuma servir as duas coisas com a mesma confiança.

Sobre a sequência básica há acordo: a escrita mesopotâmica nasce administrativa. A divergência está na explicação. Schmandt-Besserat trata a escrita como subproduto quase inevitável da complexidade contábil acumulada ao longo de milênios de tokens. Nissen e Damerow enfatizam os templos de Uruk como laboratórios burocráticos específicos, e desconfiam de leituras universais. Algaze puxa a causa para a desigualdade comercial entre o sul e o norte da bacia.

Sobre o título de mais antiga também há disputa legítima. A escrita egípcia aparece em Abidos em datas muito próximas das de Uruk, e parte dos egiptólogos defende invenção independente. A civilização do Vale do Indo se organiza por volta de 2600 a.C. com urbanismo notável, e sua escrita continua sem decifração. Caral, no litoral do Peru, ergue pirâmides entre 3000 e 2500 a.C. sem escrita nenhuma.

O que sustenta a Suméria na frente é o conjunto: cidade grande, estado, templo redistribuidor e registro escrito legível, tudo documentado no mesmo estrato e na mesma sequência.

O erro comum sobre a civilização mais antiga

Três confusões aparecem sempre, e todas se resolvem com a mesma distinção.

A primeira troca assentamento antigo por civilização. Jericó e Çatalhöyük são milhares de anos mais velhas que Uruk e não produziram estado nem escrita. Idade de ocupação não é o critério.

A segunda trata suméria e mesopotâmica como sinônimos. Sumérios, acádios, babilônios e assírios se sucedem na mesma planície ao longo de três mil anos. O sumério, aliás, é uma língua isolada, sem parentesco conhecido com nenhuma outra.

A terceira imagina a escrita como invenção de um gênio numa data. O que o estrato mostra é uma transição lenta, de tokens para bulla, de bulla para marca externa, de marca externa para tabuleta, com séculos entre cada degrau.

O legado: a planilha antes do poema

O que a civilização mais antiga do mundo deixou não foi só a cidade. Foi um padrão que se repete até hoje. Toda tecnologia de comunicação começa como tecnologia de controle, e só depois vira expressão.

A prensa de Gutenberg, nos anos 1450, imprimiu indulgências e bulas antes de publicar Lutero. O telégrafo, patenteado em 1837, serviu a ferrovias e bolsas antes de levar notícias. A ARPANET nasceu em 1969 como protocolo militar, e o e-mail surgiu em 1971 como automação de memorandos internos.

Fica um exercício simples de leitura histórica, e ele funciona com qualquer tecnologia nova que apareça na sua frente. Pergunte quem paga o custo de operar aquilo no primeiro ano, e o que essa pessoa precisa medir. A resposta descreve o uso original melhor do que qualquer manifesto de lançamento.

Uruk foi a primeira a mostrar a sequência. O pictograma de um pote de óleo precedeu o verso lírico em vários séculos, e a camada visível da cultura sempre se apoia num estrato contábil que ninguém vê.

Perguntas frequentes

Qual é a civilização mais antiga do mundo?

A candidata mais aceita é a Suméria, no sul da Mesopotâmia, atual Iraque. Foi ali que surgiram, por volta de 4000 a.C., as primeiras cidades com muralhas, templos, burocracia e escrita ao mesmo tempo. Uruk é considerada a primeira cidade do mundo em qualquer definição rigorosa do termo.

Onde ficava Uruk?

Uruk ficava no sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, na região hoje coberta pelo deserto do sul do Iraque, na província iraquiana de Al-Muthanna. No auge, entre 4000 e 3100 a.C., chegou a abrigar cerca de quarenta mil habitantes numa área de 6 km². O sítio é escavado por missões alemãs desde 1912.

Por que a escrita foi inventada?

A escrita não foi inventada para registrar literatura, e sim para controlar recursos. As primeiras tabuletas de Uruk registram estoques de grão, rebanhos e rações distribuídas pelo templo. De 85% a 90% do corpus escrito mais antigo é administrativo. Hinos, cartas e provérbios só aparecem cerca de cinco séculos depois.

O que eram os tokens sumérios?

Eram pequenas peças de argila cozida usadas para contar mercadorias antes da escrita. Cones valiam por medidas de grão, esferas por quantidades maiores, cilindros por cabeças de gado. Denise Schmandt-Besserat catalogou mais de oito mil delas e mostrou que o sistema antecede as tabuletas em milênios.

Göbekli Tepe não é mais antigo que a Suméria?

É, e por larga margem: os círculos de Göbekli Tepe datam de cerca de 9600 a.C., seis mil anos antes de Uruk. A diferença está no critério. Göbekli Tepe é um complexo monumental erguido por caçadores-coletores, sem cidade permanente, sem estado e sem escrita. Antiguidade de ocupação e civilização são medidas distintas.

A Suméria é mesmo a primeira, ou o Egito veio antes?

Os primeiros registros escritos egípcios, achados em Abidos, têm datas muito próximas das de Uruk, e parte dos egiptólogos defende invenção independente. A Suméria mantém a primazia na maioria das sínteses porque reúne no mesmo estrato cidade grande, estado, templo redistribuidor e escrita legível, com a sequência de desenvolvimento documentada nível por nível.

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