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I
Abertura
Por volta de 1100 d.C., na planície aluvial onde os rios Mississippi, Missouri e Illinois quase se tocam, havia uma cidade maior do que Londres no mesmo século. Cahokia ocupava cerca de quinze quilômetros quadrados de casas, praças e mais de uma centena de montes de terra.
No centro erguia-se Monks Mound, uma pirâmide de terra batida com base maior que a da Grande Pirâmide de Gizé e cerca de trinta metros de altura, construída cesto a cesto, sem roda, sem animal de carga, sem metal. No alto, um grande edifício de madeira dominava a paisagem.
Ao redor, uma praça onde milhares se reuniam para o jogo de chunkey e para festas que consumiam veados e milho aos milhares.
Duzentos e cinquenta anos depois, por volta de 1350, não havia mais ninguém. Nenhuma invasão registrada, nenhuma catástrofe súbita no mito local, nenhuma cidade vencedora ocupando o lugar. A maior cidade da América do Norte pré-colombiana simplesmente se esvaziou.
A explicação que circula com mais força aponta para uma grande seca. O problema é que, no registro arqueológico, o solo já estava cansado antes de a chuva faltar.
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"Cahokia foi a primeira grande cidade ao norte do México, e desapareceu antes de qualquer europeu pôr os pés nela." Timothy R. Pauketat, Cahokia: Ancient America's Great City on the Mississippi, 2009.
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II
O Estrato
Cahokia floresceu na cultura mississippiana, sociedades agrícolas que se espalharam pelo sudeste e centro-oeste do atual território dos Estados Unidos. O combustível foi o milho. A partir do século X, variedades mais produtivas permitiram concentrar gente em escala inédita ao norte do México.
Por volta de 1050 ocorre o que os arqueólogos chamam de big bang de Cahokia: a aldeia se reorganiza de uma vez em uma cidade planejada, com alinhamentos cerimoniais e movimento de terra em volume monumental.
No auge, as estimativas mais aceitas falam em dez a quinze mil habitantes só no núcleo, e talvez o dobro contando os subúrbios espalhados pela várzea. Não havia escrita, moeda nem animais de tração.
Toda essa massa dependia de duas coisas vindas do mesmo chão: milho dos campos de várzea e lenha das encostas.
Lenha para cozinhar, para aquecer, e sobretudo para erguer e reerguer a paliçada de defesa, um muro de mais de vinte mil troncos que cercou o centro a partir do século XII e foi reconstruído várias vezes.
Cada reconstrução da paliçada e cada nova colheita pesava sobre as mesmas encostas e a mesma várzea. E é aí que o estrato começa a falar.
III
O Padrão
A causa popular do abandono é uma seca prolongada que teria atingido o vale a partir de meados do século XIII. A seca existiu, e os anéis de árvores a confirmam. O detalhe que inverte a história é a ordem em que as coisas aparecem no solo.
Estudos de sedimentos e pólen na várzea de Cahokia mostram sinais de desmatamento e erosão acelerada antes do auge da seca. Ao derrubar as encostas para a lenha e a paliçada, a cidade expôs o terreno.
A chuva passou a arrastar terra para a planície, e há evidência de enchentes mais frequentes e bruscas no Mississippi local justamente no período em que a população ainda era grande. O solo de várzea, sobrecarregado por gerações de milho sem descanso, perdeu fôlego.
A defesa que protegia a cidade consumia a floresta que a alimentava.
Quando a seca chega, ela não encontra um sistema saudável. Encontra um solo já exaurido, encostas já lavadas e uma várzea já sujeita a cheias. A seca foi o golpe final em um corpo que vinha adoecendo havia décadas.
Inverter causa e consequência muda tudo: não foi o clima que matou Cahokia e sim o esgotamento do próprio sustento, ao qual o clima apenas deu o empurrão.
O Padrão é antigo e nada exótico. Uma sociedade cresce rápido, gasta a base que a sustenta para crescer ainda mais, e atribui o colapso ao choque externo que só chegou por último. O abalo que vem de fora costuma levar a culpa que pertencia, antes, ao que foi gasto por dentro.
IV
O Arquivo
O panorama mais acessível está em Timothy R. Pauketat, Cahokia: Ancient America's Great City on the Mississippi (Viking, 2009). Para a leitura ambiental do colapso, ver Larry Benson e colaboradores sobre seca e cronologia no vale, e os estudos de sedimentos de Samuel Munoz e colegas, que datam erosão e enchentes na várzea (publicados em Geology e em PNAS, 2015).
O sítio Cahokia Mounds, em Illinois, é Patrimônio Mundial da UNESCO e segue em escavação. Cada camada de sedimento reposicionada reordena a cronologia do que veio antes da seca.
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