|
Roma conquistou quase tudo, mas Cartago ela não conquistou: ela apagou. Depois de três guerras, a cidade não foi anexada, foi arrasada até o nome virar lenda. Destruir por completo um rival é confessar o quanto se temia perder para ele.
I
Abertura
Em 146 a.C., depois de um cerco que durou anos, soldados romanos entraram em Cartago e não pararam até que a cidade deixasse de existir. As construções foram derrubadas, a população foi morta ou escravizada, e o que sobrou de uma das maiores potências do mundo antigo virou ruína silenciosa na costa do norte da África.
Roma havia enfrentado muitos inimigos. Este foi o único que ela não quis apenas vencer. Quis apagar.
E aqui está a fratura que esta edição vai escavar: quase tudo o que sabemos sobre Cartago chegou até nós pela pena de quem a destruiu. Os arquivos cartagineses se perderam, as bibliotecas foram dispersas, e a versão que sobreviveu é a do vencedor.
Conhecemos o inimigo de Roma sobretudo pela voz de Roma.
|
"Cartago não perdeu só a guerra. Perdeu o direito de contar a própria história." A partir de Richard Miles, Carthage Must Be Destroyed, 2010.
|
II
O Estrato
Cartago nasce por volta de 814 a.C. como colônia de mercadores fenícios vindos de Tiro, no atual Líbano, fixada num ponto estratégico da costa do que hoje é a Tunísia. Não foi a guerra que a fez grande, e sim o mar.
Os cartagineses montaram a mais poderosa rede de comércio marítimo do Mediterrâneo ocidental, com portos, frotas e entrepostos espalhados pela Sicília, Sardenha, sul da Ibéria e norte africano.
A lógica era a do entreposto. Por Cartago passavam metais da península Ibérica, marfim e ouro vindos do interior africano, púrpura, cerâmica e grãos. A cidade cobrava, intermediava e protegia esse fluxo com uma marinha temida.
A frota era sustentada por mercenários pagos com a riqueza do tráfego. Entre os séculos VI e IV a.C., poucos lugares do mundo conhecido movimentavam tanto.
Com o dinheiro veio uma civilização própria, hoje quase invisível. Cartago tinha sua língua, sua escrita, seus deuses como Tanit e Baal, suas práticas religiosas, sua engenharia naval e portuária admirada até pelos rivais. Por séculos, comércio e cultura prosperaram juntos, sustentados pelo controle das rotas do mar.
O problema é que tudo isso ficava no caminho de uma potência que crescia do outro lado do mesmo mar.
III
O Padrão
A força de Cartago era também o seu alvo. Duas potências que disputam o mesmo mar não cabem nele por muito tempo, e a vizinha em ascensão se chamava Roma.
O choque veio em três rodadas, as Guerras Púnicas, a partir de 264 a.C.. Na segunda, o general Aníbal cruzou os Alpes com elefantes, derrotou exército romano após exército romano em solo italiano e chegou perto de quebrar Roma por dentro.
Mas a guerra virou, e em 202 a.C., na batalha de Zama, no norte da África, Roma venceu de forma definitiva. Cartago foi reduzida, desarmada, obrigada a pagar e a obedecer.
Poderia ter terminado ali. Não terminou. Em Roma, uma facção encerrava cada discurso com a mesma frase, que a cidade deveria ser destruída. Em 146 a.C., depois de um último cerco, Roma não se contentou com a rendição. Arrasou a cidade, dispersou os sobreviventes e tratou de fazer desaparecer não só o poder de Cartago, mas a sua memória.
O Padrão aqui é mais sombrio do que o da simples queda. Toda potência que perde é contada pelos outros. Mas Cartago perdeu duas vezes, a guerra e a narrativa. Quem destrói o inimigo e depois escreve a história fica com a versão única. O vencedor não herda só o território, herda a caneta.
A pergunta que assombra não é quem venceu, e sim quanto do que você sabe sobre o derrotado é só o que o vencedor decidiu deixar contar.
IV
O Arquivo
Sobre Cartago e as Guerras Púnicas, ver Richard Miles, Carthage Must Be Destroyed (Allen Lane, 2010), síntese moderna que reconstrói a civilização púnica para além da ótica romana. Para a campanha de Aníbal e o conflito com Roma, ver Adrian Goldsworthy, The Fall of Carthage (Cassell, 2003).
O relato do cerco e da destruição em 146 a.C. chega sobretudo por autores ligados ao mundo romano, entre eles o grego Políbio, que acompanhou de perto os comandantes romanos e cuja obra sobre Cartago sobreviveu apenas em fragmentos, lembrança de quanto da voz cartaginesa se perdeu junto com a cidade.
|