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Civilizações Perdidas · Civilização do Indo: não foi guerra, foi um rio que saiu do lugar
Civilizações Perdidas

A CIVILIZAÇÃO DO DIA

Civilização do Indo

Vale do Indo e planície do Ghaggar-Hakra (Paquistão e noroeste da Índia) · c. 2600-1900 a.C.

Não foi guerra. Foi um rio que mudou de lugar.

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Civilizações Perdidas

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Civilização do Indo (Harappa e Mohenjo-daro)

A LINHA DO TEMPO

Aldeias ribeirinhas → cidades em grade c. 2600 a.C. → auge urbano → secagem do Ghaggar-Hakra → dispersão c. 1900 a.C.

I

Abertura

Em Mohenjo-daro, no atual sul do Paquistão, há uma rua que ainda escorre quando chove. Foi traçada por volta de 2600 a.C., reta, larga o bastante para dois carros de boi, e por baixo dela corre um esgoto de tijolo coberto.

As casas tinham banheiro com dreno próprio ligado à canalização da via, poços revestidos de tijolo cozido para água limpa, e lixeiras embutidas na parede externa. Quatro mil e seiscentos anos depois, há cidades vivas hoje que não têm isso.

A Civilização do Indo cobriu, no seu auge, uma área maior que a do Egito e a da Mesopotâmia somadas. Tinha mais de mil assentamentos, duas grandes capitais (Harappa, ao norte, e Mohenjo-daro, ao sul), pesos e medidas padronizados, escrita própria.

E então, por volta de 1900 a.C., as grandes cidades se esvaziaram. Não há camada de cinzas de guerra, não há vala comum de massacre, não há sinal de invasor montando acampamento sobre as ruínas.

A fratura que esta edição vai escavar é simples e estranha: como some uma civilização inteira sem que ninguém a derrube.

"Os rios deram à luz a civilização do Indo, e a sua mudança de curso ajudou a desfazê-la."
Liviu Giosan e colegas, PNAS, 2012.

II

O Estrato

Os harappanos, nome que vem do primeiro sítio escavado, surgiram de aldeias agrícolas ao longo do rio Indo e de um segundo grande sistema fluvial a leste, o Ghaggar-Hakra. Por volta de 2600 a.C. essas aldeias deram um salto: viraram cidades planejadas. E aqui está a singularidade.

Harappa e Mohenjo-daro não cresceram torto, como Roma ou Ur. Foram desenhadas em grade, com quarteirões orientados pelos pontos cardeais, ruas principais cruzando ruas secundárias em ângulo reto, e um setor elevado (a "cidadela") separado da cidade baixa.

O tijolo era padronizado numa proporção fixa de 1:2:4 do norte ao sul do território, a centenas de quilômetros de distância. Os pesos seguiam um sistema binário rigoroso. A escrita harappana aparece em milhares de selos de esteatita, gravados com animais e sinais que ninguém até hoje decifrou.

Não se conhece nenhum palácio, nenhum templo monumental, nenhuma tumba real recheada de ouro. Era uma civilização rica que parece não ter tido reis faraônicos, e sim uma elite mercantil e administrativa obcecada por ordem, higiene e medida.

A base de tudo era a água. As cidades dependiam das cheias sazonais e dos canais do Indo e do Ghaggar-Hakra para irrigar trigo e cevada e para mover o comércio fluvial até o mar Arábico, de onde saíam contas de cornalina e marfim rumo à Mesopotâmia.

III

O Padrão

Por gerações a explicação favorita foi a invasão. No início do século XX, ao encontrar alguns esqueletos desarticulados em Mohenjo-daro, arqueólogos imaginaram um massacre, e casaram a imagem com a chegada de povos de fala indo-ariana, vindos do noroeste. Nasceu o "mito do massacre ariano". Ele não resistiu ao exame.

Os tais esqueletos são de épocas diferentes, vários com sinais de sepultamento, nenhum formando o cenário de batalha. Não existe estrato de destruição militar nas grandes cidades.

O que existe é um rio sumindo. Estudos de geologia e de sensoriamento remoto rastrearam o paleocanal do Ghaggar-Hakra, o curso que muitos identificam com o lendário rio Sarasvati dos textos védicos.

Por volta de 2000 a 1900 a.C., mudanças no monção e capturas de cabeceiras desviaram as águas que o alimentavam. O rio encolheu, fragmentou-se em poças sazonais e, em trechos, secou.

As cidades plantadas às suas margens perderam a cheia que irrigava a colheita e a via que movia o comércio.

O Padrão aqui não é o do exército que arromba o portão. É o da infraestrutura que perde a sua premissa.

Quando o recurso que sustenta a cidade se desloca, a população não precisa ser morta: ela se dispersa, migra para leste rumo à planície do Ganges, volta ao modo aldeia. O Espelho é incômodo.

Uma sociedade pode ter o saneamento mais avançado do seu tempo e mesmo assim ser refém de uma única variável ambiental que ela não controla. A engenharia não falhou. O rio é que mudou de endereço.

IV

O Arquivo

Para a virada da interpretação, ver Andrew Robinson, The Indus: Lost Civilizations (Reaktion Books, 2015), síntese acessível do estado da pesquisa.

Sobre o paleocanal Ghaggar-Hakra e o colapso hidroclimático, o estudo de Liviu Giosan e colegas, "Fluvial landscapes of the Harappan civilization" (PNAS, 2012), mapeia a migração dos rios e a relação com o abandono urbano. Os sítios de Mohenjo-daro e Harappa seguem sob estudo, e cada estação de campo reposiciona a cronologia da água.

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