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Elam rivalizou com a Mesopotâmia por dois mil anos, ergueu zigurates e resistiu a impérios. Mesmo assim, quase ninguém lembra o nome. Durar não garante ser lembrado, e o Império Persa absorveu Elam até apagá-lo da memória.
I
Abertura
Quase todo mundo já ouviu falar da Babilônia, da Suméria, da Assíria. Quase ninguém ouviu falar de Elam, e no entanto Elam esteve lá o tempo todo, do outro lado do rio, encarando todas elas de igual para igual.
Por mais de dois mil anos, entre cerca de 2700 e 540 a.C., um reino com escrita própria, língua própria e religião própria ocupou o sudoeste do que hoje é o Irã, com capital em Susa.
Elam não foi um povo de passagem. Foi uma das civilizações mais longevas que o mundo conheceu, contemporânea do início da escrita e ainda de pé quando a Pérsia surgia. Mesmo assim, saiu da memória comum quase sem deixar rastro no imaginário.
O recorte de hoje é justamente esse: como uma potência tão antiga e tão duradoura virou nota de rodapé. A resposta envolve um saque brutal e, depois dele, algo mais silencioso e mais definitivo.
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"Susa, a grande cidade santa, eu conquistei. Em um mês de dias arrasei Elam por toda a sua extensão." Inscrição real de Assurbanipal, rei da Assíria, c. 646 a.C.
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II
O Estrato
Elam ficava nas terras a leste do baixo Tigre, encaixado entre a planície de Susa, ao pé das montanhas, e o planalto iraniano. Essa geografia dupla, várzea fértil mais terras altas, deu ao reino o que faltava à Mesopotâmia: estanho, madeira, pedra e metais que desciam das montanhas.
Susa, no fundo da planície, virou um dos centros urbanos mais antigos e contínuos do mundo, habitada desde o quarto milênio antes de Cristo.
Os elamitas escreviam. Tinham o proto-elamita, um dos sistemas de escrita mais antigos do planeta, ainda hoje só parcialmente decifrado, e mais tarde o elamita linear e o cuneiforme adaptado à sua língua, que não era nem semítica nem indo-europeia.
Eram, ao mesmo tempo, rivais e parceiros da Mesopotâmia: ora invadiam a Babilônia e levavam embora seus troféus, ora comerciavam e casavam dinastias.
No século XIII a.C., no auge do poder, o rei elamita ergueu Choga Zanbil, um zigurate colossal de tijolos, um dos maiores e mais bem preservados do Oriente Próximo, dedicado a Inshushinak, o deus de Susa.
O reino sobreviveu a impérios inteiros ao seu redor. Mas sua força tinha um eixo: o controle de Susa e da planície, o nó que ligava as montanhas ao comércio das planícies.
III
O Padrão
Esse eixo foi quebrado de uma vez. Por volta de 646 a.C., o rei assírio Assurbanipal, depois de anos de guerra, lançou sobre Elam uma campanha de destruição deliberada. Susa foi saqueada e arrasada.
Os assírios não buscavam só pilhagem: profanaram templos, levaram os deuses elamitas no cativeiro, deportaram a população, semearam sal sobre a terra como gesto de aniquilação. Os próprios relatos assírios se gabam de ter silenciado a região.
O eixo político de Elam, o que mantinha o reino coeso por milênios, foi partido.
Mas o saque, sozinho, não apaga uma civilização da memória. Cidades são saqueadas e renascem. O que terminou Elam foi o que veio depois. Sobre as ruínas e o território enfraquecido, ergueu-se o Império Persa. Susa não foi destruída de novo: foi adotada.
Os persas aquemênidas fizeram dela uma de suas capitais, herdaram sua administração, sua escrita, parte de seus escribas. Elam não foi exterminado. Foi absorvido, dissolvido tão completamente dentro do império maior que parou de existir como ideia separada.
O Padrão aqui não é o do colapso violento. É o da diluição. Um saque pode quebrar a espinha de uma civilização, mas é a absorção pacífica por um vizinho maior que apaga seu nome, porque a continuidade vira do sucessor, não do morto.
Quem é engolido inteiro deixa de ter história própria: vira capítulo na história de quem engoliu. Dois mil anos de Elam sobrevivem hoje quase só como o pavimento sobre o qual a Pérsia foi construída.
IV
O Arquivo
O caso é reconstruído a partir das próprias inscrições reais assírias, que descrevem o saque de Susa por Assurbanipal, e do registro arqueológico de Susa, escavada desde o fim do século XIX pela missão francesa que ali achou também a estela do Código de Hamurábi, levada como butim para Elam séculos antes.
Para uma síntese acessível, ver D. T. Potts, The Archaeology of Elam (Cambridge, 1999).
Choga Zanbil é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1979, o primeiro sítio iraniano a entrar na lista.
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