Civilizações Perdidas #005 · Hititas
Civilizações Perdidas

CAPÍTULO Nº 005

TEMPORADA V · O IMPÉRIO DO FERRO

Hititas

Anatólia central (Hattusa) · c. 1600-1178 a.C.

O primeiro monopólio tecnológico da história.

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Portão dos Leões de Hattusa com muralhas ciclópicas no planalto anatólio

A LINHA DO TEMPO

tribos anatólias → Hattusa → metalurgia do ferro → batalha de Kadesh → colapso da Idade do Bronze

I

Abertura

Em 1834, o viajante francês Charles Texier chegou ao planalto seco a duzentos quilômetros a leste de Ancara, atrás de uma cidade romana chamada Tavium. Em vez disso, encontrou muralhas ciclópicas de pedra, portões esculpidos com leões gigantes e um santuário rochoso com centenas de figuras em baixo-relevo que ele não soube identificar. Texier desenhou tudo e voltou para a Europa convencido de que havia descoberto os restos de uma civilização inteiramente desconhecida no coração da Anatólia. Ninguém acreditou. A região, em 1834, pertencia a uma aldeia chamada Boğazköy e a arqueologia europeia ainda organizava o mundo antigo em três nomes: Egito, Grécia, Mesopotâmia.

Setenta anos depois, em 1906, o alemão Hugo Winckler abriu uma trincheira no mesmo sítio e tirou do chão o arquivo real de um império inteiro. Dez mil tabuletas de argila em escrita cuneiforme. Tratados internacionais. Correspondência diplomática com faraós e reis babilônicos. O nome que aparecia em todas: Hatti. O tchecoeslovaco Bedřich Hrozný decifraria a língua em 1915, no meio da Primeira Guerra. O império que sumiu da memória do Ocidente por três mil anos tinha nome, capital e arquivo.

"Os hititas dominaram a Anatólia por quase meio milênio e depois desapareceram tão completamente que sua própria existência foi esquecida."
Trevor Bryce, The Kingdom of the Hittites, 2005.

II

O Estrato

Hattusa, a capital, ocupa cento e oitenta e oito hectares de um planalto cortado por ravinas, cercado por uma muralha dupla com portões monumentais: o Portão dos Leões, o Portão do Rei, o Portão da Esfinge. As fortificações foram erguidas entre 1650 e 1200 a.C. Dentro da cidade, cinco templos monumentais, um palácio real, uma acrópole chamada Büyükkale e o santuário rochoso de Yazılıkaya, onde sessenta e três divindades hititas foram esculpidas em procissão sobre a rocha viva.

O arquivo real recuperado por Winckler e pelas missões alemãs subsequentes chega a cerca de trinta mil tabuletas. Leis codificadas, rituais, mitos, anais militares, cartas entre reis. É o segundo maior corpus cuneiforme do mundo antigo, atrás apenas da Mesopotâmia. Entre os textos está o Tratado de Kadesh, assinado em 1259 a.C. entre o rei hitita Hattusili III e o faraó Ramsés II, quinze anos depois da batalha homônima travada no rio Orontes. É o primeiro tratado internacional documentado da história da humanidade. Uma cópia em hitita está em Istambul. Uma cópia em hieróglifos egípcios, em Luxor. Uma reprodução da versão em acádio decora a sede da ONU em Nova York.

A inovação que fez o império crescer vivia nas oficinas de metalurgia. Os hititas foram a primeira cultura a produzir ferro trabalhado em escala significativa, entre os séculos XIV e XIII a.C., quando o resto do Mediterrâneo ainda operava quase exclusivamente com bronze. A evidência arqueológica inclui forjas em Kaman-Kalehöyük, adagas de ferro em túmulos reais e cartas diplomáticas em que outros soberanos pedem, com insistência polida, que o rei hitita envie algumas peças. O ferro hitita era exportado como mercadoria de luxo, raro e prestigioso, quase quatrocentos anos antes do ferro se tornar commodity agrícola na Idade do Ferro do Mediterrâneo.

III

O Padrão

Por décadas, o ferro hitita foi tratado como a chave de um monopólio tecnológico. A leitura padrão dizia: Hattusa dominou uma técnica que os concorrentes não tinham, fechou a exportação, e transformou a vantagem metalúrgica em poder militar e diplomático. A arqueóloga Kaoru Akanuma e o projeto japonês de Kaman-Kalehöyük começaram a questionar a extensão do monopólio nos anos 2000. O ferro hitita existe, é real, é anterior ao ferro generalizado, mas a produção talvez fosse mais regional do que imperial, mais oficinal do que industrial. Ainda assim, o fato central se mantém: quando o resto trabalhava bronze, Hattusa já tinha ferro. E mesmo assim caiu.

Por volta de 1178 a.C., Hattusa foi incendiada, abandonada, e o Império Hitita deixou de existir. Não em declínio lento. Em colapso coordenado com o resto do Mediterrâneo oriental. É o evento que Eric Cline, arqueólogo da George Washington University, analisou em seu livro 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed, publicado em 2014. No mesmo século, Micenas entra em ruína, Ugarit é queimada, o Egito do Novo Império entra em crise, a escrita linear B desaparece da Grécia por quatrocentos anos. Cidades inteiras da costa levantina deixam de emitir sinal arqueológico. A civilização do Bronze Mediterrâneo morre de uma vez.

As causas formam o que Cline chama de "tempestade perfeita". Há evidência paleoclimática, vinda de núcleos de sedimentos no mar de Galileia e pólen na Anatólia, de uma seca severa e prolongada por volta de 1200 a.C. Há registros escritos de terremotos sequenciais na região. Há movimentos populacionais de grupos que os egípcios chamaram de Povos do Mar, e que chegaram ao delta do Nilo em ondas documentadas por Ramsés III em Medinet Habu. E há, dentro do próprio arquivo hitita, correspondência dos últimos reis implorando grãos a Ugarit, relatos de fome e cartas falando em guerra civil entre facções da corte.

O ferro não salvou. E talvez essa seja a lição mais desconfortável que os hititas deixam. Uma civilização pode ser a primeira a dominar uma tecnologia de ruptura, monopolizar a vantagem durante quatro séculos, construir a maior muralha do Oriente Médio, assinar o primeiro tratado internacional da história, e mesmo assim desaparecer em menos de uma geração quando o sistema maior em que opera entra em colapso. Os hititas eram tecnologicamente superiores aos adversários e mesmo assim caíram com eles. O monopólio tecnológico compra tempo, dá vantagem relativa, inscreve o nome nos anais. Não protege contra colapso sistêmico. Quando seca, terremoto, migração e crise política se combinam, a metalurgia mais avançada do mundo vira um detalhe arqueológico. A Assíria herdaria o ferro. Não o império.

IV

O Arquivo

Hattusa foi escavada sistematicamente desde 1906 pelo Instituto Arqueológico Alemão, primeiro sob Hugo Winckler e Otto Puchstein, depois sob Kurt Bittel a partir de 1931, e hoje sob Andreas Schachner em cooperação com o governo turco. O sítio foi inscrito como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1986. Das trinta mil tabuletas do arquivo real, a maioria está distribuída entre os museus arqueológicos de Istambul, Ancara e Berlim. A decifração da língua hitita por Hrozný em 1915 é um dos feitos fundadores da linguística indo-europeia, já que o hitita se revelou o ramo mais antigo atestado da família.

Para esta edição foram consultadas as obras de Trevor Bryce, The Kingdom of the Hittites (Oxford University Press, 2005), e Billie Jean Collins, The Hittites and Their World (SBL, 2007); os trabalhos filológicos de Gary Beckman sobre tratados diplomáticos; a decifração fundadora de Bedřich Hrozný (1915); e o estudo sistêmico de Eric H. Cline, 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed (Princeton University Press, 2014). As datações seguem a cronologia média aceita pela maioria das universidades europeias para o Bronze Recente.

Até a próxima civilização.

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