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Civilizações Perdidas

A CIVILIZAÇÃO DO DIA

Império Romano do Ocidente

Mediterrâneo ocidental, capital em Ravena · deposição de Rômulo Augusto em 476 d.C.

Nenhum ano a derrubou. Todos os anos a corroeram.

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Império Romano do Ocidente

A LINHA DO TEMPO

Crise do terceiro século e inflação c. 200-300 → divisão Oriente-Ocidente em 395 → povos federados nas fronteiras c. 376-450 → saques de Roma em 410 e 455 → deposição de Rômulo Augusto em 476, fim da linha imperial no Ocidente

Roma não caiu num dia, e é isso que a torna desconcertante. Nenhuma batalha derrubou o Ocidente; foram séculos de inflação, fronteiras cedendo e saques somados. Quando depuseram o último imperador, o império já tinha se dissolvido por dentro.

I

Abertura

No ano de 476 d.C., um oficial de origem germânica chamado Odoacro depôs o jovem Rômulo Augusto, último imperador a reinar no Ocidente romano, e não nomeou ninguém no lugar dele. Mandou as insígnias imperiais para Constantinopla, governou a Itália como rei e seguiu adiante.

Não houve uma batalha que decidisse o mundo. Não houve um portão arrombado naquele dia. Houve apenas o fim discreto de um cargo que, a essa altura, já não comandava quase nada.

A imagem de Roma caindo de uma vez, sob uma horda que transpõe a muralha, é cinema. O que aconteceu de verdade foi mais lento e mais difícil de ver.

O Império Romano do Ocidente, que por séculos organizou o Mediterrâneo a partir da Itália, foi sendo esvaziado por dentro até que a sua autoridade central simplesmente deixou de importar. Em 476, alguém só constatou isso em voz alta.

"Roma não caiu num estrondo. Foi a soma lenta de sistemas que pararam de funcionar até que o centro deixou de fazer diferença."
A partir de Bryan Ward-Perkins, The Fall of Rome and the End of Civilization, 2005.

II

O Estrato

No auge, o Império Romano administrava algo perto de quase toda a Europa ocidental, o norte da África e o Levante, com uma máquina de impostos, estradas, legiões e moeda que mantinha milhões de pessoas dentro de uma mesma ordem jurídica. A partir do final do século II, essa máquina começa a falhar em camadas, e nenhuma das camadas sozinha explica o fim.

A primeira camada foi o dinheiro. Para pagar exércitos cada vez maiores, os imperadores foram rebaixando a prata das moedas: o denário, antes quase puro, vira uma ficha com fina lavagem prateada por fora.

O resultado foi uma inflação crônica que corroeu a confiança na moeda e empurrou a economia de volta para a troca e o pagamento em espécie.

A segunda foi a demografia: surtos repetidos de peste, como a peste Antonina e a de Cipriano, esvaziaram cidades e reduziram tanto os contribuintes quanto os recrutas.

A terceira camada foi a fronteira. Sob pressão de povos empurrados pela estepe, o império passou a assentar grupos inteiros dentro das suas linhas, os federados, e a preencher as próprias legiões com esses contingentes.

O exército que defendia Roma foi ficando, cada vez mais, feito de gente que devia pouca lealdade à ideia de Roma.

Por cima de tudo isso, a estrutura fiscal se fragmentava: grandes proprietários blindavam suas terras de impostos, províncias paravam de repassar receita à capital, e o estado que cobrava menos conseguia defender menos, o que dava ainda menos motivo para alguém pagar.

III

O Padrão

Quando se junta tudo, o quadro fica claro: moeda sem lastro, população reduzida, fronteiras porosas e arrecadação vazando num mesmo período de séculos. A autoridade imperial não foi derrubada num golpe. Ela foi perdendo, uma de cada vez, as funções que justificavam a sua existência.

Quando não consegue mais cobrar imposto de forma confiável, pagar e comandar um exército leal, nem garantir a moeda, o que sobra de um governo central é o título. E título não defende província.

O Padrão aqui é o do colapso por erosão, não por evento. É a tentação de procurar a data, o bárbaro, a batalha única que explica a queda, quando o que de fato derrubou foi a soma lenta de muitas falhas que se alimentam.

Cada remendo de curto prazo, rebaixar a moeda, terceirizar a defesa, abrir mão de cobrar de quem reclamava, comprava um ano e cobrava juros no seguinte.

Em 476, não restava mais o que rebaixar. Um sistema assim não cai no dia do desastre. Cai no dia em que ninguém mais percebe a diferença entre tê-lo e não tê-lo. Foi exatamente isso que Odoacro constatou ao não nomear um sucessor: o cargo de imperador do Ocidente já tinha deixado de importar muito antes de ser oficialmente extinto.

IV

O Arquivo

Sobre o fim do Ocidente romano, ver Peter Heather, The Fall of the Roman Empire: A New History of Rome and the Barbarians (Oxford University Press, 2005), e Bryan Ward-Perkins, The Fall of Rome and the End of Civilization (Oxford University Press, 2005), que reconstrói o impacto material do colapso a partir da arqueologia, da cerâmica à moeda.

A deposição de Rômulo Augusto em 476 é registrada por fontes tardias como a crônica de Marcelino Comes. O Oriente romano, com capital em Constantinopla, seguiria por mais mil anos.

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Verdadeiro ou Falso: Segundo o texto, a queda do Império Romano do Ocidente em 476 foi causada por uma única grande invasão, e não pela soma lenta de inflação crônica, peste, pressão nas fronteiras e fragmentação fiscal ao longo de séculos.

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