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I
Abertura
Em março de 1900, o arqueólogo britânico Arthur Evans começou a escavar uma colina baixa perto da vila de Knossos, na costa norte de Creta, seis quilômetros ao sul da atual Heráclio. Evans havia comprado o terreno anos antes, com dinheiro próprio, convencido de que a tradição grega sobre o rei Minos e o labirinto encobria um estrato histórico real. Em poucas semanas, ele atravessou camadas de cerâmica e cinza, e encontrou paredes pintadas com afrescos de golfinhos, jovens saltando sobre touros e mulheres em vestidos de saias em camadas. O pavimento de gesso mostrava corredores que se dobravam sobre si mesmos. Havia escadas de luz, banheiros com água corrente, pátios centrais retangulares, e depósitos cheios de pithoi de dois metros de altura, ainda contendo resíduos de azeite e grão.
O que Evans chamou, em 1921, de "civilização minóica" em referência a Minos era algo até então ausente do mapa histórico europeu: uma cultura de palácios sem muralhas, floreada no Egeu quase mil anos antes da primeira polis grega. O problema é que Evans também moldou a interpretação dela de modo permanente. Reconstruiu colunas e afrescos, em cimento armado e pigmentos novos, a ponto de Knossos ser hoje tanto um sítio arqueológico quanto uma obra de Evans.
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"Os minóicos foram a primeira talassocracia, um poder que se exerce pelo mar, não pela terra." Thomas F. Tartaron, Maritime Networks in the Mycenaean World, 2013.
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II
O Estrato
A civilização minóica ocupou Creta e as Cíclades, no mar Egeu, aproximadamente entre 2000 e 1450 a.C. Arthur Evans dividiu a cronologia em três fases: Minoano Antigo, Médio e Tardio, subdivididas em três períodos numerados. Essa divisão, embora criticada, ainda organiza a arqueologia da região. Os quatro grandes palácios são Knossos, Festos, Malia e Zakros. Somadas, as áreas construídas superam 20.000 m² cada, com centenas de cômodos organizados em torno de pátios retangulares de cerca de 50 por 25 metros.
Nenhum dos palácios minóicos foi fortificado. Esse é o dado que redefine a categoria. Nem muros defensivos contra inimigos externos, nem torres, nem portões monumentais como os da Micenas continental. As escavações conduzidas por John Pendlebury nos anos 1930 e, mais tarde, pelos projetos gregos do século XX, confirmaram repetidamente a mesma ausência. O centro urbano não foi projetado para resistir a um cerco. Isso só faz sentido se o perímetro de segurança era o próprio mar.
O controle marítimo é material. A cerâmica minóica, com seus motivos de polvos, conchas e plantas, aparece em sítios do sul do Peloponeso, em Santorini (Thera), em Rodes, em Chipre, no delta do Nilo (Tell el-Dab'a, no Egito, onde afrescos estilo minóico foram descobertos nos anos 1990 pela equipe de Manfred Bietak), e até em Ugarit, no Levante. Os arquivos em argila encontrados em Knossos e Festos usam duas escritas distintas: o Linear A, ainda indecifrado após um século, e, no período final, o Linear B, que Michael Ventris decifrou em 1952 como grego micênico arcaico. A transição entre os dois sistemas é a assinatura material da substituição da elite cretense.
A cronologia da erupção de Thera, o vulcão da atual Santorini, foi objeto de debate durante décadas. A datação tradicional situava o evento por volta de 1500 a.C. Sturt Manning, de Cornell, usando dendrocronologia e carbono-14 em grãos de cevada carbonizados em Akrotiri, propôs em 2006 uma data mais antiga, por volta de 1628 a.C. Estudos posteriores com anéis de árvores e núcleos de gelo da Groenlândia convergiram para uma janela entre 1620 e 1540 a.C., ainda em discussão. O que não é controverso: a erupção foi de magnitude VEI 7, expeliu cerca de 60 km³ de material, gerou tsunamis que atingiram a costa norte de Creta e cobriu Akrotiri, cidade minóica em Thera, sob metros de pedra-pomes, onde Spyridon Marinatos a desenterrou a partir de 1967.
III
O Padrão
A tradição grega clássica já associava Creta ao mar. Tucídides, no primeiro livro de sua História da Guerra do Peloponeso (c. 430 a.C.), escreveu que Minos foi o primeiro a dominar o que os gregos chamariam de talassocracia, construir frotas e expulsar piratas do Egeu. O termo apareceu antes da arqueologia confirmar a existência física do poder que ele descrevia. Quando Evans desenterrou Knossos dois mil e trezentos anos depois, confirmou que a memória grega havia preservado, em forma distorcida, o fato de uma ordem política anterior à própria Grécia.
O padrão minóico é o da talassocracia antes do império territorial. Uma sociedade pode concentrar poder econômico, cultural e diplomático sem jamais precisar de exércitos de ocupação nem de muralhas urbanas, desde que controle as rotas marítimas. A especialização é tão eficiente que se torna também a vulnerabilidade definitiva. Quando o choque ambiental vem, ele vem pelo mar. Jan Driessen e Colin Macdonald, em The Troubled Island (1997), argumentaram que a erupção de Thera e seus tsunamis destruíram a frota minóica e a infraestrutura portuária da costa norte cretense. Isso teria desencadeado uma década ou mais de colapso econômico, visível no registro arqueológico como uma camada de cinza e reformas apressadas em Knossos.
A substituição veio de fora. Os micênicos do continente grego, até então parceiros comerciais secundários de Creta, aparecem nos estratos cretenses do Minoano Tardio IIIA, por volta de 1450-1400 a.C. Trazem consigo a língua grega, a escrita Linear B, armamento pesado, tumbas em poço com bens de prestígio, e um estilo cerâmico distinto. Os palácios minóicos, exceto Knossos, são destruídos por incêndio quase simultaneamente nessa janela. Knossos é reocupada por uma elite que usa Linear B para escrever grego, ainda que mantenha a estrutura física do palácio. Eric Cline, em 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed (2014), situou a ruína da talassocracia minóica como o primeiro elo de uma cascata que, três séculos depois, derrubaria o sistema egeu-mediterrâneo inteiro no chamado Colapso da Idade do Bronze.
As interpretações divergem sobre a ordem causal. Uma leitura prudente, representada por Nanno Marinatos e por Sturt Manning, separa Thera do colapso final. Thera golpeou a economia minóica por volta de 1600 a.C., mas Knossos sobreviveu por mais de um século. O colapso político só vem depois, talvez por enfraquecimento estrutural e oportunismo micênico. Outra leitura, de Driessen e Macdonald, aproxima as duas pontas e vê a erupção como fratura inicial. Há ainda argumentos de A. Bernard Knapp, em Prehistoric and Protohistoric Cyprus (2008), sobre o papel da mudança de rotas comerciais no Levante, que teria enfraquecido Creta antes mesmo de qualquer choque direto.
O padrão, independentemente de qual leitura se adote, é nítido. Uma civilização dependente de controle marítimo é extraordinariamente eficiente em tempos de estabilidade. O mar dispensa muralhas, permite cidades abertas, financia afrescos, libera recursos para a produção cultural. Mas a mesma dependência exige que o mar continue funcionando como rede. Quando um choque geológico, climático ou militar quebra essa rede, a civilização perde sua infraestrutura mais cara: a própria geografia. E o que vem em seguida não precisa nem ser brutal. Uma elite externa, até então parceira, ocupa o vazio sem precisar destruir tudo. Assimila o que sobrou. Substitui a língua dos arquivos. Mantém os pátios retangulares e muda quem os administra.
IV
O Arquivo
Arthur Evans dirigiu Knossos de 1900 a 1931. A escavação continuou sob John Pendlebury até sua morte em Creta em 1941, durante a ocupação alemã, e depois sob equipes britânicas e gregas em colaboração com a Escola Britânica de Atenas. Festos e Malia foram escavadas por equipes italianas e francesas ao longo do século XX. Akrotiri, em Thera, começou a ser desenterrada por Spyridon Marinatos em 1967 e segue ativa sob direção do Serviço Arqueológico Grego. O Linear B está decifrado. O Linear A resiste.
Para esta edição foram consultados Evans em The Palace of Minos at Knossos (volumes de 1921 a 1935), Nanno Marinatos em Minoan Religion (1993), Jan Driessen e Colin Macdonald em The Troubled Island (1997), A. Bernard Knapp em Prehistoric and Protohistoric Cyprus (2008), Sturt Manning em A Test of Time Revisited (2014) para a cronologia de Thera, e Eric Cline em 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed (2014). A decifração do Linear B segue Michael Ventris e John Chadwick em Documents in Mycenaean Greek (1956).
Até a próxima civilização.
Civilizações Perdidas
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