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I
Abertura
Em dezembro de 1924, o arqueólogo britânico John Marshall publicou na revista The Illustrated London News uma reportagem de três páginas com um título que chocou a comunidade orientalista: "First Light on a Long-Forgotten Civilisation". O texto apresentava duas cidades até então desconhecidas, Harappa e Mohenjo-daro, escavadas pela equipe do Archaeological Survey of India em sítios a mais de seiscentos quilômetros de distância uma da outra, no vale do rio Indo. Os artefatos eram quase idênticos. Selos cúbicos de esteatita com inscrições indecifráveis. Cerâmica de mesma fatura. Tijolos com proporções padronizadas em dez por vinte por quarenta centímetros.
Marshall concluiu, com cautela rara para a época, que o subcontinente indiano havia abrigado uma civilização tão antiga quanto a do Egito e da Suméria. E que, diferente destas, não havia deixado reis, exércitos ou templos monumentais. Em uma linha que perseguiria a arqueologia do sul da Ásia por um século, ele escreveu que aquela era "a civilização mais enigmática já descoberta, precisamente pela ausência daquilo que, em outros lugares, seria o centro da narrativa".
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"Aqui, pela primeira vez, temos uma civilização em escala imperial sem qualquer vestígio de poder imperial." John Marshall, Mohenjo-daro and the Indus Civilization, 1931.
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II
O Estrato
A Civilização do Vale do Indo cobriu uma área de aproximadamente 1,25 milhão de km², o que a torna a maior em extensão territorial de todas as civilizações do terceiro milênio a.C. Egito e Mesopotâmia, reunidos, ocupavam menos de um terço desse espaço. A estimativa populacional trabalhada por Gregory Possehl, em The Indus Civilization (2002), situa o auge demográfico entre cinco e seis milhões de pessoas, distribuídas em pelo menos 2.600 sítios já catalogados, dos quais Mohenjo-daro e Harappa eram os maiores centros urbanos.
Mohenjo-daro, no sul, tinha cerca de 40.000 habitantes na fase madura, entre 2500 e 1900 a.C. A cidade foi planejada em grelha ortogonal, com ruas principais orientadas norte-sul e leste-oeste. O saneamento é o que mais impressiona. Quase todas as casas tinham banheiro ligado a uma rede de esgoto construída com tijolos cozidos, vedada com betume, e coberta por lajes removíveis para manutenção. É o sistema sanitário urbano mais antigo de que se tem registro, e não voltaria a existir em escala comparável na Europa antes do século XIX.
Jonathan Mark Kenoyer, da Universidade de Wisconsin-Madison, e Jane McIntosh, da Universidade de Cambridge, organizaram nas últimas três décadas o inventário do que não foi encontrado. Não há palácios identificáveis como sede de governo. Não há túmulos monumentais com bens de prestígio que indicariam uma elite hereditária. Não há representações de reis em selos ou estatuária, ao contrário do que ocorre na Suméria contemporânea. Não há fortificações militares ofensivas, embora existam muralhas de contenção contra enchentes. Não há templos de grande escala, embora haja estruturas cerimoniais menores como o Grande Banho de Mohenjo-daro, uma piscina pública revestida de tijolos vedados com betume, medindo 12 por 7 metros.
A escrita do Indo, o chamado Indus script, permanece indecifrada após um século de tentativas. Asko Parpola, da Universidade de Helsinki, dedicou toda a carreira ao problema e concluiu, em Deciphering the Indus Script (1994), que o corpus de cerca de 4.000 inscrições é curto demais (a maior inscrição tem dezessete sinais) para permitir decifração pelos métodos convencionais. Os cerca de 400 sinais distintos aparecem em selos de comércio, tablets de argila e placas votivas, mas nunca em textos extensos. A civilização do Indo escreveu pouco, e o que escreveu pode ser justamente inventários curtos de comércio, não literatura ou decretos.
Por volta de 1900 a.C., as cidades são gradualmente abandonadas. Não há evidência de destruição violenta. A população dispersa-se para aldeias menores, nos sopés do Himalaia e ao longo do Ganges.
III
O Padrão
A arqueologia do século XX herdou de Gordon Childe uma expectativa: civilizações se organizam por verticalidade. Há um rei, há um templo, há uma casta guerreira, há escribas a serviço do poder. Quando Mortimer Wheeler assumiu a direção do Archaeological Survey of India em 1944, aplicou esse modelo a Mohenjo-daro. Viu a "cidadela", a parte mais elevada do sítio, como um palácio-fortaleza. Interpretou a dispersão final como invasão ariana. A narrativa ficou conhecida e entrou em livros escolares: os indo-arianos teriam destruído a civilização do Indo no segundo milênio a.C.
Quase tudo isso foi desmontado. Kenneth Kennedy, em estudos de bioantropologia publicados nos anos 1980 e 1990, demonstrou que os esqueletos encontrados em Mohenjo-daro não apresentam traços de morte violenta em escala compatível com uma invasão. A "cidadela" carece de evidências de função militar, e provavelmente era um complexo cerimonial e administrativo. A hipótese de invasão ariana como causa do colapso foi gradualmente substituída por explicações ambientais, consolidadas no estudo de Liviu Giosan e colegas publicado em 2012 na revista PNAS.
Giosan cruzou dados geomorfológicos, sedimentos fluviais e reconstruções paleoclimáticas. Mostrou que a monção de verão, principal fonte de água para a agricultura do Indo, enfraqueceu de forma significativa entre 2200 e 1900 a.C. O rio Sarasvati, descrito em textos védicos posteriores e identificado pela equipe com o atual Ghaggar-Hakra, perdeu vazão perene e se tornou sazonal. Os sistemas de irrigação e o comércio fluvial com a Mesopotâmia, documentado em tabuletas acádicas que mencionam "barcos de Meluhha", entraram em colapso paralelo. As cidades não foram destruídas. Foram abandonadas porque deixaram de fazer sentido econômico.
Aqui está o espelho. Uma civilização pode ter existido por setecentos anos, em escala continental, sem produzir um único rei identificável, sem erguer palácios, sem deixar exércitos organizados ou monumentos militares. Pode ter distribuído saneamento mais igualitariamente do que qualquer sociedade do mundo antigo. E pode ter desaparecido em silêncio, não por violência, mas porque o padrão climático que sustentava sua base agrícola mudou. A civilização do Indo é a contraprova da equação "civilização = hierarquia + monumento".
O que se perde, nessa narrativa alternativa, é a capacidade de reconhecê-la. Sem palácios, sem túmulos ricos, sem escrita decifrável, sem herói épico, Mohenjo-daro e Harappa ocupam um lugar periférico na história mundial ensinada fora do sul da Ásia. A visibilidade histórica é uma função do tipo de vestígio que uma sociedade escolhe deixar. Sociedades horizontais, que não concentraram recursos em tumbas ou estátuas de soberanos, são sistematicamente subestimadas pela arqueologia ocidental. Rita Wright, em The Ancient Indus (2010), argumenta que o próprio vocabulário da disciplina precisa ser reconstruído para dar conta desse tipo de sociedade.
O padrão que Mohenjo-daro oferece é duplo. Primeiro: civilização não exige verticalidade. Segundo: quando o substrato ecológico muda, civilizações podem terminar sem drama, como correntes que se desfiam. A nossa época tende a confundir continuidade com ordem política. O vale do Indo sugere que pode haver outra relação entre as duas coisas, e que o fim pode ser lento, climático, e perfeitamente silencioso.
IV
O Arquivo
Mohenjo-daro foi escavada por John Marshall e Rakhaldas Banerji entre 1922 e 1931, depois por Ernest Mackay até 1938, e por Mortimer Wheeler nos anos 1940. Hoje é patrimônio mundial da UNESCO, sob ameaça crescente de erosão por sais do lençol freático, e suas escavações de grande escala estão congeladas desde os anos 1960 por decisão conservacionista. Harappa continua ativa sob o Harappa Archaeological Research Project, co-dirigido por Jonathan Mark Kenoyer e Richard Meadow.
Para esta edição foram consultados Marshall em Mohenjo-daro and the Indus Civilization (1931), Wheeler em The Indus Civilization (1968), Parpola em Deciphering the Indus Script (1994), Possehl em The Indus Civilization (2002), Kenoyer em Ancient Cities of the Indus Valley Civilization (1998), Wright em The Ancient Indus (2010), e o estudo de Giosan et al. (2012) no PNAS sobre monção e colapso. As datações seguem a cronologia revisada pela equipe de Harappa.
Até a próxima civilização.
Civilizações Perdidas
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