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Os hohokam escavaram centenas de quilômetros de canais e regaram o deserto do Arizona por mil anos. O povo se dispersou, mas a obra ficou e ainda guia cidades modernas. Uma civilização pode desaparecer e seguir desenhando o mapa de quem veio depois.
I
Abertura
No coração do deserto mais árido da América do Norte, onde a chuva mal passa de duzentos milímetros por ano, um povo fez a terra dar três safras num único ciclo.
Não havia rios suficientes na superfície para isso. Havia algo mais raro: o talento de mover água onde a natureza não a deixava ficar.
Os Hohokam habitaram o vale do rio Gila e do Salt River, no que hoje é o Arizona, por cerca de mil anos. E aqui está a fratura que esta edição vai escavar: a obra que sustentou essa civilização, uma rede de canais de irrigação cavada à mão na rocha e no barro, foi também a corda que a prendeu.
A mesma engenharia que regou o deserto ficou rígida demais para sobreviver às cheias que ela própria já não conseguia conter.
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"Cavar o canal foi o triunfo dos Hohokam. Depender dele foi a sua sentença." A partir de Suzanne K. Fish e Paul R. Fish, The Hohokam Millennium, 2007.
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II
O Estrato
Os primeiros assentamentos surgem no vale por volta de 450 d.C., pequenas aldeias agrícolas que aprenderam a desviar a água do rio para os campos. Com o passar dos séculos, esse gesto simples virou uma das maiores obras de engenharia hidráulica das Américas antes da chegada europeia.
A escala impressiona até hoje. Os Hohokam escavaram centenas de quilômetros de canais, alguns com vários metros de largura e profundidade suficiente para conduzir um volume contínuo de água por dezenas de quilômetros, com inclinação calculada de modo que o fluxo fosse forte o bastante para correr, mas suave o bastante para não erodir as paredes.
Tudo isso sem roda, sem animais de tração, sem instrumentos de metal. Apenas bastões de cavar, cestos e um conhecimento acumulado do comportamento do rio.
A recompensa foi uma civilização densa. Surgiram grandes aldeias, campos de jogo de bola semelhantes aos da Mesoamérica, montículos de plataforma para rituais.
No período Clássico ergueram estruturas monumentais como a Casa Grande, um edifício de quatro andares em barro endurecido que ainda hoje se mantém de pé no deserto. O comércio de conchas, turquesa e cerâmica de vermelho sobre creme ligava o vale a redes que iam do Pacífico ao planalto do Colorado. Por séculos, água e prosperidade correram pelo mesmo leito.
III
O Padrão
A força dos Hohokam era também a sua dependência. Um povo que vive de uma rede de canais está refém de duas perguntas que não controla: o rio vai se comportar como sempre se comportou, e o sistema é flexível o bastante para absorver o dia em que ele não se comportar.
A primeira pressão foi a própria escala. Quanto maior a rede, mais bocas dependiam dela e menos margem havia para erro. Manter centenas de quilômetros de canais limpos, calibrados e em acordo entre muitas aldeias exigia uma coordenação social cada vez mais tensa. O sistema que dava abundância também concentrava o risco: uma falha a montante atingia todos a jusante.
A segunda pressão veio do próprio rio. Entre os séculos XIV e XV, o vale enfrentou oscilações severas. Cheias violentas rasgaram as bocas de captação e entulharam os canais de sedimento, enquanto períodos de seca baixaram o nível da água abaixo do ponto em que a engenharia conseguia desviá-la.
Décadas de uso intensivo também salinizaram o solo, reduzindo a colheita justo quando ela mais precisava render.
A infraestrutura era precisa demais para se dobrar. Calibrada para um rio estável, ela quebrava quando o rio mudava de humor. Por volta de 1450, as grandes aldeias se dispersaram. Não houve invasão, não houve um inimigo na porta. As comunidades simplesmente se desfizeram em grupos menores e mais móveis, antes mesmo de qualquer europeu pisar na região.
O Padrão aqui é o da solução tão bem ajustada ao mundo de hoje que não cabe no mundo de amanhã. A engenharia que resolve o problema da abundância raramente é a mesma que resolve o problema da mudança. Quanto mais perfeito o sistema para uma condição, mais frágil ele fica quando a condição vira outra.
IV
O Arquivo
Sobre a arqueologia e a hidráulica Hohokam, ver George J. Gumerman (org.), Exploring the Hohokam: Prehistoric Desert Peoples of the American Southwest (University of New Mexico Press, 1991), coletânea de referência sobre o vale do Gila. Para a engenharia dos canais e o colapso do sistema, ver Suzanne K. Fish e Paul R. Fish (org.), The Hohokam Millennium (School for Advanced Research Press, 2007).
A rede de canais Hohokam é tão eficiente que parte do traçado moderno de irrigação do vale de Phoenix segue o curso aberto por eles há mais de seiscentos anos, fato registrado por engenheiros do século XIX que reabriram canais pré-históricos ao colonizar a região.
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