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Até a próxima civilização.

Civilizações Perdidas

Civilizações Perdidas

A CIVILIZAÇÃO DO DIA

Os Hohokam

Deserto de Sonora, vale do rio Gila, atual Arizona · auge entre c. 450 e 1450 d.C.

O povo que regou o deserto por mil anos abandonou os canais que ainda usamos hoje.

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Civilizações Perdidas 

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Os Hohokam

A LINHA DO TEMPO

Assentamentos no vale do Gila c. 450 d.C. → centenas de km de canais escavados → auge c. 1150-1300 com grandes aldeias e campos de jogo de bola → Casa Grande no Clássico → cheias e secas nos séc. XIV-XV → dispersão c. 1450

Os hohokam escavaram centenas de quilômetros de canais e regaram o deserto do Arizona por mil anos. O povo se dispersou, mas a obra ficou e ainda guia cidades modernas. Uma civilização pode desaparecer e seguir desenhando o mapa de quem veio depois.

I

Abertura

No coração do deserto mais árido da América do Norte, onde a chuva mal passa de duzentos milímetros por ano, um povo fez a terra dar três safras num único ciclo.

Não havia rios suficientes na superfície para isso. Havia algo mais raro: o talento de mover água onde a natureza não a deixava ficar.

Os Hohokam habitaram o vale do rio Gila e do Salt River, no que hoje é o Arizona, por cerca de mil anos. E aqui está a fratura que esta edição vai escavar: a obra que sustentou essa civilização, uma rede de canais de irrigação cavada à mão na rocha e no barro, foi também a corda que a prendeu.

A mesma engenharia que regou o deserto ficou rígida demais para sobreviver às cheias que ela própria já não conseguia conter.

"Cavar o canal foi o triunfo dos Hohokam. Depender dele foi a sua sentença."
A partir de Suzanne K. Fish e Paul R. Fish, The Hohokam Millennium, 2007.

II

O Estrato

Os primeiros assentamentos surgem no vale por volta de 450 d.C., pequenas aldeias agrícolas que aprenderam a desviar a água do rio para os campos. Com o passar dos séculos, esse gesto simples virou uma das maiores obras de engenharia hidráulica das Américas antes da chegada europeia.

A escala impressiona até hoje. Os Hohokam escavaram centenas de quilômetros de canais, alguns com vários metros de largura e profundidade suficiente para conduzir um volume contínuo de água por dezenas de quilômetros, com inclinação calculada de modo que o fluxo fosse forte o bastante para correr, mas suave o bastante para não erodir as paredes.

Tudo isso sem roda, sem animais de tração, sem instrumentos de metal. Apenas bastões de cavar, cestos e um conhecimento acumulado do comportamento do rio.

A recompensa foi uma civilização densa. Surgiram grandes aldeias, campos de jogo de bola semelhantes aos da Mesoamérica, montículos de plataforma para rituais.

No período Clássico ergueram estruturas monumentais como a Casa Grande, um edifício de quatro andares em barro endurecido que ainda hoje se mantém de pé no deserto. O comércio de conchas, turquesa e cerâmica de vermelho sobre creme ligava o vale a redes que iam do Pacífico ao planalto do Colorado. Por séculos, água e prosperidade correram pelo mesmo leito.

III

O Padrão

A força dos Hohokam era também a sua dependência. Um povo que vive de uma rede de canais está refém de duas perguntas que não controla: o rio vai se comportar como sempre se comportou, e o sistema é flexível o bastante para absorver o dia em que ele não se comportar.

A primeira pressão foi a própria escala. Quanto maior a rede, mais bocas dependiam dela e menos margem havia para erro. Manter centenas de quilômetros de canais limpos, calibrados e em acordo entre muitas aldeias exigia uma coordenação social cada vez mais tensa. O sistema que dava abundância também concentrava o risco: uma falha a montante atingia todos a jusante.

A segunda pressão veio do próprio rio. Entre os séculos XIV e XV, o vale enfrentou oscilações severas. Cheias violentas rasgaram as bocas de captação e entulharam os canais de sedimento, enquanto períodos de seca baixaram o nível da água abaixo do ponto em que a engenharia conseguia desviá-la.

Décadas de uso intensivo também salinizaram o solo, reduzindo a colheita justo quando ela mais precisava render.

A infraestrutura era precisa demais para se dobrar. Calibrada para um rio estável, ela quebrava quando o rio mudava de humor. Por volta de 1450, as grandes aldeias se dispersaram. Não houve invasão, não houve um inimigo na porta. As comunidades simplesmente se desfizeram em grupos menores e mais móveis, antes mesmo de qualquer europeu pisar na região.

O Padrão aqui é o da solução tão bem ajustada ao mundo de hoje que não cabe no mundo de amanhã. A engenharia que resolve o problema da abundância raramente é a mesma que resolve o problema da mudança. Quanto mais perfeito o sistema para uma condição, mais frágil ele fica quando a condição vira outra.

IV

O Arquivo

Sobre a arqueologia e a hidráulica Hohokam, ver George J. Gumerman (org.), Exploring the Hohokam: Prehistoric Desert Peoples of the American Southwest (University of New Mexico Press, 1991), coletânea de referência sobre o vale do Gila. Para a engenharia dos canais e o colapso do sistema, ver Suzanne K. Fish e Paul R. Fish (org.), The Hohokam Millennium (School for Advanced Research Press, 2007).

A rede de canais Hohokam é tão eficiente que parte do traçado moderno de irrigação do vale de Phoenix segue o curso aberto por eles há mais de seiscentos anos, fato registrado por engenheiros do século XIX que reabriram canais pré-históricos ao colonizar a região.

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Segundo a edição, a Casa Grande, construída pelos Hohokam no período Clássico no vale do rio Gila, era um edifício de quantos andares feito em barro endurecido?

ADois andares
BTrês andares
CQuatro andares
DSete andares
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👀 Na próxima edição

Cartago 🗿

O passado fala. Sic transit gloria mundi.

 

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