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I
Abertura
No domingo de Páscoa de 1722, o navegador holandês Jacob Roggeveen avistou no meio do Pacífico Sul uma ilha que nenhum mapa europeu registrava.
Em terra, encontrou centenas de estátuas de pedra com até dez metros de altura e dezenas de toneladas, voltadas para o interior, de costas para o mar. E encontrou também uma população que o recebeu, comerciou, e o impressionou pela saúde física. Roggeveen chamou o lugar de Ilha de Páscoa.
Os habitantes a chamavam de Rapa Nui.
Por mais de dois séculos, uma única história explicou aquela paisagem. A ilha teria sido coberta por uma floresta de palmeiras gigantes. Os rapanui teriam derrubado cada uma delas para transportar os moais, competindo entre clãs numa corrida de vaidade monumental.
Sem árvores, sem canoas, sem solo, a sociedade teria desabado em guerra e fome muito antes de qualquer europeu chegar. O nome dessa tese é ecocídio. E ela é, em grande parte, falsa.
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"As estátuas não derrubaram a floresta, e a floresta derrubada não derrubou o povo." Síntese da revisão de Terry Hunt e Carl Lipo, The Statues That Walked, 2011.
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II
O Estrato
Rapa Nui foi colonizada por navegadores polinésios, provavelmente por volta de 1200 d.C., ao fim de uma das maiores epopeias de navegação da história humana, a expansão pelo Pacífico aberto.
Numa ilha vulcânica de 164 quilômetros quadrados, a mais isolada do planeta habitada de forma permanente, esse povo ergueu quase 900 moais entre os séculos XIII e XVII. As estátuas representavam ancestrais. Eram cabeças da linhagem, postas para vigiar e proteger os vivos.
Eram um sistema religioso, não um concurso de ego.
A floresta de palmeiras realmente desapareceu. Isso não está em disputa. O que mudou foi a explicação. Análises de sementes fossilizadas mostraram marcas de dentes do rato polinésio, o Rattus exulans, que chegou nas canoas dos colonizadores e se multiplicou sem predadores.
Os ratos comiam as sementes da palmeira antes que germinassem. O desmatamento foi real, porém lento, parcialmente movido por roedores, e não correspondeu a um colapso humano.
Datações por radiocarbono refeitas nas plataformas cerimoniais indicam construção contínua e estável, sem o pico de violência que a tese clássica exigia. A população se adaptou: passou a cultivar em jardins de pedra, os manavai, que retinham umidade e protegiam as raízes. Quando Roggeveen chegou em 1722, havia gente saudável recebendo-o na praia. Não havia ruína.
III
O Padrão
O colapso de Rapa Nui tem data e nome, e ambos vêm de fora. Em dezembro de 1862, navios peruanos começaram uma série de incursões escravistas na ilha.
Levaram cerca de 1.500 pessoas, mais ou menos metade da população, incluindo o rei e quase toda a classe sacerdotal, a única que sabia ler a escrita rongorongo. Sob pressão diplomática, poucos sobreviventes foram devolvidos no ano seguinte, e trouxeram consigo a varíola.
A doença, contra a qual a ilha não tinha defesa, varreu o que a escravização havia poupado. A tuberculose somou-se ao desastre. Em 1877, restavam 111 pessoas em Rapa Nui. Em 1888, a ilha foi anexada pelo Chile. A queda demográfica não levou séculos de derrubada de palmeiras. Levou pouco mais de uma década, e começou num porão de navio.
O Padrão aqui é sobre quem escreve a história do morto. A versão do ecocídio é confortável: culpa a vítima, transforma um genocídio por contato em uma fábula ecológica sobre povos que destroem o próprio mundo.
É mais fácil contar que os rapanui se condenaram do que admitir que mercadores de escravos e patógenos importados os quase exterminaram em duas décadas. O presente faz isso o tempo todo.
Quando um povo desaparece, a primeira pergunta deveria ser quem lucrou com o desaparecimento, não que erro a vítima cometeu.
IV
O Arquivo
A revisão da tese do ecocídio está em Terry Hunt e Carl Lipo, The Statues That Walked (Free Press, 2011), que reúne as datações refeitas e a hipótese das sementes roídas por ratos. A história demográfica do contato e da escravização peruana está documentada em H. E. Maude, Slavers in Paradise (Stanford University Press, 1981).
Para o contexto polinésio amplo e a navegação, ver Patrick Kirch, On the Road of the Winds (University of California Press, 2000). O sítio de Rapa Nui é Patrimônio Mundial da UNESCO, e a escavação dos moais enterrados segue revelando que o que estava sob a terra muda o que se conta sobre ela.
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