Civilizações Perdidas #002 · Uruk
Civilizações Perdidas

CAPÍTULO Nº 002

TEMPORADA II · A INVENÇÃO DO FUTURO

Uruk

Mesopotâmia, sul do Iraque · c. 3500 a.C.

A escrita nasceu como contabilidade, não como literatura.

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Tabuletas cuneiformes de Uruk com registros administrativos em argila

A LINHA DO TEMPO

aldeias agrícolas → excedente → templo → tabuletas → impérios

I

Abertura

Em 1928, Julius Jordan, arqueólogo alemão do Instituto Arqueológico Alemão, levantou de uma camada de lixo antigo, em Warka, no sul do atual Iraque, algo que parecia uma ficha. Era uma pequena peça de argila cozida, do tamanho de uma moeda, marcada por sulcos geométricos. Havia milhares delas espalhadas pelos níveis profundos da escavação. Jordan não sabia o que tinha em mãos. Achou que fossem contas de jogo, ou amuletos. Meio século depois, a arqueóloga franco-americana Denise Schmandt-Besserat passou a catalogá-las sistematicamente em museus da Europa e do Oriente Médio. Encontrou mais de oito mil peças semelhantes, distribuídas por sítios neolíticos que iam da Turquia ao Paquistão.

Schmandt-Besserat percebeu que os sulcos e formas não eram decoração. Eram um sistema. Cones pequenos representavam medidas de grão; esferas, quantidades maiores; cilindros, cabeças de gado; discos, rebanhos. Os tokens eram uma tecnologia de contagem, usada por milênios antes de alguém decidir gravá-los em barro plano. A transição que ela descreveu em 1992, no livro Before Writing, é o ponto zero da civilização letrada.

"A escrita surgiu do registro de mercadorias. Pictogramas vieram depois. Literatura, muito depois."
Denise Schmandt-Besserat, Before Writing, 1992.

II

O Estrato

Uruk, hoje coberta pelas dunas do deserto iraquiano entre o Eufrates e o Tigre, foi a primeira cidade do mundo em qualquer definição defensável do termo. Entre 4000 e 3100 a.C., a população concentrada dentro de suas muralhas passou de algumas centenas para aproximadamente quarenta mil habitantes, número que só seria igualado por Atenas três mil anos mais tarde. A área urbana chegou a 6 km² cercados por uma muralha de mais de nove quilômetros, atribuída pela tradição ao rei Gilgamesh.

No coração da cidade ficavam dois complexos templários. O Eanna, dedicado à deusa Inanna, e o Kullaba, dedicado a An, deus do céu. Hans Nissen, arqueólogo da Universidade Livre de Berlim que dirigiu a missão alemã em Uruk nos anos 1960 e 1970, estratificou o sítio em dezoito níveis de ocupação. Nos níveis IV e III, datados entre 3350 e 3100 a.C., a equipe encontrou algo inédito: tabuletas de argila com marcas incisas. Não eram tokens soltos. Eram superfícies planas, registrando quantidades e categorias num sistema coerente.

As primeiras cinco mil tabuletas de Uruk, catalogadas por Nissen, Peter Damerow e Robert Englund ao longo dos anos 1980 e 1990, não contam histórias. Registram estoques. Volumes de cevada entregues ao templo. Número de ovelhas recebidas em troca de tecido. Rações distribuídas a trabalhadores. Nomes de funcionários e seus selos. De 85% a 90% do corpus escrito de Uruk, no período formativo, é administrativo. Os 10% restantes são listas lexicais, espécie de dicionários padronizados usados para treinar escribas a reconhecer sinais.

A escrita cuneiforme, que chamamos pelo formato em cunha dos sinais impressos na argila úmida, surge em Uruk por volta de 3200 a.C. Nasce madura. Já conta com cerca de 900 sinais distintos, combinação de pictogramas, determinativos de categoria e numerais. O que Guillermo Algaze chamou, em Ancient Mesopotamia at the Dawn of Civilization (2008), de "revolução urbana" da Mesopotâmia é, na prática, uma revolução contábil. A cidade cresceu em torno de um sistema capaz de rastrear quem devia o que a quem.

III

O Padrão

Durante o século XIX, a história da escrita foi contada em tom heroico. O historiador alemão Friedrich Delitzsch, em conferências que agitaram o imperador Guilherme II em 1902, apresentou a Mesopotâmia como berço da literatura e da lei. A imagem popular ficou assim: a escrita é o instrumento da alma humana, o canal pelo qual pensamento complexo atravessou os milênios. Gilgamesh, o primeiro herói literário, ajudou a consolidar o mito.

O estrato de Uruk diz outra coisa. A escrita foi inventada para contar cevada. Só cinco séculos depois de sua emergência contábil, por volta de 2600 a.C., ela começa a registrar hinos religiosos, cartas pessoais e provérbios. O poema de Gilgamesh, na forma que Andrew George reconstituiu para a Penguin Classics em 1999 a partir de tabuletas acádicas do segundo milênio, nasce com a tecnologia da escrita já nos seus mil e quinhentos anos de idade. A literatura chega atrasada ao próprio instrumento que a viabiliza.

O padrão se estende muito além de Uruk. Nicholas Postgate, em Early Mesopotamia (1992), argumentou que a escrita mesopotâmica nunca foi apenas comunicação, mas infraestrutura de governo. Cada nova tecnologia que amplia o alcance da linguagem repete o mesmo ciclo. A prensa de Gutenberg, nos anos 1450, foi usada antes para imprimir indulgências e bulas administrativas do que para publicar Lutero. O telégrafo, patenteado em 1837, serviu primeiro a ferrovias e bolsas de valores, depois a notícias e cartas privadas. O telefone, segundo a correspondência de Alexander Graham Bell nos anos 1880, foi vendido inicialmente como ferramenta para dirigentes de empresa falarem com gerentes em outras cidades. A internet nasceu ARPANET, em 1969, como protocolo militar de resiliência de comando. O e-mail surgiu em 1971 como automação de memorandos internos.

Toda tecnologia de comunicação começa como tecnologia de controle. Literatura, afeto, expressão individual, tudo o que associamos ao valor "humano" da linguagem escrita chega depois, quando a estrutura já está estabilizada. O pictograma de um pote de óleo precedeu o verso lírico em vários séculos. A planilha precede o poema.

Onde a interpretação acadêmica diverge é no grau de consciência dessa sequência. Schmandt-Besserat defende que a escrita é um subproduto quase inevitável da complexidade administrativa. Nissen e Damerow enfatizam o papel dos templos de Uruk como laboratórios burocráticos específicos, não representativos de um processo universal. Algaze insiste que a primeira urbanização mesopotâmica foi impulsionada por desigualdade comercial entre o sul e o norte da bacia. O consenso, contudo, é o ponto básico: a escrita não foi inventada porque alguém tinha algo a dizer. Foi inventada porque alguém tinha algo a registrar, e precisava que o registro durasse mais do que a memória de quem assinasse.

O que Uruk ensina, como espelho para a nossa própria época, é desconfortável. As tecnologias que hoje celebramos por sua capacidade de conectar pessoas emergiram de funções administrativas mais frias. O que vem depois, expressão, cultura, comunidade, é construído sobre uma infraestrutura cuja lógica original era inventariar recursos. Esse é o estrato que sustenta a camada visível.

IV

O Arquivo

Uruk é escavada sem interrupção desde 1912. A missão alemã foi dirigida por Julius Jordan nos anos 1920, por Heinrich Lenzen entre 1931 e 1967, por Hans Nissen até os anos 1980, e hoje segue sob coordenação do Instituto Arqueológico Alemão. A cidade ainda guarda grandes áreas por explorar, soterradas pelas dunas da província de Al-Muthanna, no Iraque. A cronologia relativa dos níveis e o corpus das tabuletas arcaicas foram organizados pelo projeto Archaische Texte aus Uruk, publicado entre 1987 e 1996 por Nissen, Damerow e Englund.

Para esta edição foram consultados Schmandt-Besserat em Before Writing (1992) e How Writing Came About (1996), Postgate em Early Mesopotamia (1992), Algaze em Ancient Mesopotamia at the Dawn of Civilization (2008), e a tradução de Gilgamesh por Andrew George (1999). As datações seguem a cronologia intermediária adotada pelo projeto do Oriental Institute de Chicago.

Até a próxima civilização.

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